Rupturas do saber, rupturas do poder
Francisco José Alves de Aragão*
Francisco José Alves de Aragão*
Os homens formam a sociedade educando-se entre si, no interagir humano. A sociedade é, portanto, uma situação educativa. Todos os dias misturamos a vida com educação. Ela é o resultado e a condição das relações entre os homens, pois é justamente a capacidade dos homens atuarem junto a outros homens, aprendendo e ensinando, e principalmente organizando-se para o trabalho, que a torna possível. Indivíduo e sociedade interagem nesse processo em construção, de modo que seus hábitos e comportamentos, maneiras de agir e de pensar, acabam por construir, criar o que conhecemos por cultura ou mundo cultural. Assim, a criação e transmissão da cultura é mediado pela educação.
Para satisfazerem suas necessidades, os homens formam instituições sociais que se destacam por sua finalidade, objetivos e regras destinadas aos que delas participam. A família, a escola, a Igreja, o Estado, o partido político, são exemplos dessas instituições, que desenvolvem papel fundamental no processo de socialização. Nesse ínterim, a linguagem se destaca como uma das primeiras instituições a aparecer na vida do homem, subordinando outras que dependem de um arcabouço lingüístico de classificação e de conceitos, e que acabam por gerar um universo de significados. Estão sempre presentes nas instituições grupos de homens a quem interessa ou não a sua manutenção na forma como estão. Há sempre uma certa tensão. Se os homens são produtos das instituições sociais, eles também agem para criá-las e modificá-las. Então, a lingugem serve também, entre outras coisas, para mostrar a permanência e a mudança dessas instituições sociais.
O aparecimento da escola como apenas um momento do cotidiano está ligado à progressiva divisão social do trabalho, pois ao se tornar mais e mais complexa, a sociedade compartimentaliza o cotidiano em momentos específicos, com sua lógica e regras próprias. O resultado desse processo é a fragmentação da realidade, tornando o mundo em que se vive cada vez menos perceptível. Esse processo, alijado da criatividade e da reflexão, transforma-se em processo de domesticação intelectual. Note que os livros didáticos já vêm com respostas às questões levantadas, como se fossem universais, sem implicações ideológicas. Assim, a aprendizagem confina-se na memorização, com a mera reprodução do saber. As potencialidades não estritamente intectuais do homem, como as lúdicas, artísticas e espirituais são desconsideradas quando se separa o espaço do aprendizado, do espaço da existência. Acentua-se assim a divisão entre saber intelectual e experimental, impedindo os homens de pensar o quotidiano e suas implicações.
O problema não está necessariamente na divisão de trabalho, mas sim na perda de visão de conjunto que se sofre, pelo fato de não se deter o controle do conhecimento produzido e da produção realizada. Decorrem das situações coletivas, socias do trabalho, as soluções que vão construindo o mundo cultural. Se a solução encontrada não volta aos homens que produzem o problema, o saber assim produzido cada vez mais se torna produto de poder, passando a sociedade a se dividir entre os que pensam e os que executam. O trabalhador cada vez mais perde a visão de conjunto da produção e de seus problemas e o trabalho deixa de ser uma atividade de criação e se torna uma atividade de repetição coercitiva. O objeto produzido, bem como o conhecimento decorrente do trabalho, não pertence mais àqueles homens e apenas servem para aumentar sua pobreza.
Um ditado popular afirma : “ Saber é poder “ . É no uso que o homem faz do conhecimento, se o reparte igualmente ou se o utiliza como posse e poder sobre muitos, que consiste a diferença entre os homens, na ligação do saber que se transforma em poder. Em sociedades complexas, onde a divisão de trabalho é bem maior, o conhecimento e os outros bens materiais que o trabalho produz são distribuídos de maneira desigual. Quanto maior essa desigualdade, maior será a relação entre saber e poder, haja vista o conhecimento acabar ficando apenas nas mãos de alguns. Aqui, o ditado aplica-se em sua dupla relação: “Saber é poder” e “Poder é saber” .
A proposta da ciência à educação através da universidade é centrada justamente na ruptura do contexto supra citado, de mera reprodutora de conhecimento a uma verdadeira produtora de ciência, criação e elaboração de conhecimento. O conhecimento científico não pode se tornar dogmático, verdadeiro em si mesmo, ele precisa voltar constantemente à realidade e à experimentação para progredir. O que faz a ciência caminhar, produzir novos conhecimentos, é a percepção de que o conhecimento produzido não é suficiente para explicar a realidade. Na ciência, conhecimento e realidade devem estar em constante interação. Aqui, mais uma vez aludimos o papel fundamental da universidade em superar os limites que a divisão de trabalho coloca aos trabalhadores, retornando a eles o conhecimento produzido nas situações coletivas de trabalho.
É premente que a universidade procure romper os limites que restringem a atividade escolar à mera repetidora de conteúdos arrolados pelos livros didáticos, procurando a formulação de propostas curriculares que integrem os conteúdos das diferentes disciplinas na explicação da realidade presente interna e externamente a ela. É preciso mais e mais estabelecer relações entre a educação dentro da universidade e fora da universidade, numa dialética ininterrupta, globalizante, crítica, que deve servir ao homem e à melhoria de sua vida, possibilitando verificar até que ponto a universidade contribui, de fato, para que o saber possa, efetivamente, ser de todos e não apenas de alguns; não, por acaso, os que detêm o poder econômico e político.
Para satisfazerem suas necessidades, os homens formam instituições sociais que se destacam por sua finalidade, objetivos e regras destinadas aos que delas participam. A família, a escola, a Igreja, o Estado, o partido político, são exemplos dessas instituições, que desenvolvem papel fundamental no processo de socialização. Nesse ínterim, a linguagem se destaca como uma das primeiras instituições a aparecer na vida do homem, subordinando outras que dependem de um arcabouço lingüístico de classificação e de conceitos, e que acabam por gerar um universo de significados. Estão sempre presentes nas instituições grupos de homens a quem interessa ou não a sua manutenção na forma como estão. Há sempre uma certa tensão. Se os homens são produtos das instituições sociais, eles também agem para criá-las e modificá-las. Então, a lingugem serve também, entre outras coisas, para mostrar a permanência e a mudança dessas instituições sociais.
O aparecimento da escola como apenas um momento do cotidiano está ligado à progressiva divisão social do trabalho, pois ao se tornar mais e mais complexa, a sociedade compartimentaliza o cotidiano em momentos específicos, com sua lógica e regras próprias. O resultado desse processo é a fragmentação da realidade, tornando o mundo em que se vive cada vez menos perceptível. Esse processo, alijado da criatividade e da reflexão, transforma-se em processo de domesticação intelectual. Note que os livros didáticos já vêm com respostas às questões levantadas, como se fossem universais, sem implicações ideológicas. Assim, a aprendizagem confina-se na memorização, com a mera reprodução do saber. As potencialidades não estritamente intectuais do homem, como as lúdicas, artísticas e espirituais são desconsideradas quando se separa o espaço do aprendizado, do espaço da existência. Acentua-se assim a divisão entre saber intelectual e experimental, impedindo os homens de pensar o quotidiano e suas implicações.
O problema não está necessariamente na divisão de trabalho, mas sim na perda de visão de conjunto que se sofre, pelo fato de não se deter o controle do conhecimento produzido e da produção realizada. Decorrem das situações coletivas, socias do trabalho, as soluções que vão construindo o mundo cultural. Se a solução encontrada não volta aos homens que produzem o problema, o saber assim produzido cada vez mais se torna produto de poder, passando a sociedade a se dividir entre os que pensam e os que executam. O trabalhador cada vez mais perde a visão de conjunto da produção e de seus problemas e o trabalho deixa de ser uma atividade de criação e se torna uma atividade de repetição coercitiva. O objeto produzido, bem como o conhecimento decorrente do trabalho, não pertence mais àqueles homens e apenas servem para aumentar sua pobreza.
Um ditado popular afirma : “ Saber é poder “ . É no uso que o homem faz do conhecimento, se o reparte igualmente ou se o utiliza como posse e poder sobre muitos, que consiste a diferença entre os homens, na ligação do saber que se transforma em poder. Em sociedades complexas, onde a divisão de trabalho é bem maior, o conhecimento e os outros bens materiais que o trabalho produz são distribuídos de maneira desigual. Quanto maior essa desigualdade, maior será a relação entre saber e poder, haja vista o conhecimento acabar ficando apenas nas mãos de alguns. Aqui, o ditado aplica-se em sua dupla relação: “Saber é poder” e “Poder é saber” .
A proposta da ciência à educação através da universidade é centrada justamente na ruptura do contexto supra citado, de mera reprodutora de conhecimento a uma verdadeira produtora de ciência, criação e elaboração de conhecimento. O conhecimento científico não pode se tornar dogmático, verdadeiro em si mesmo, ele precisa voltar constantemente à realidade e à experimentação para progredir. O que faz a ciência caminhar, produzir novos conhecimentos, é a percepção de que o conhecimento produzido não é suficiente para explicar a realidade. Na ciência, conhecimento e realidade devem estar em constante interação. Aqui, mais uma vez aludimos o papel fundamental da universidade em superar os limites que a divisão de trabalho coloca aos trabalhadores, retornando a eles o conhecimento produzido nas situações coletivas de trabalho.
É premente que a universidade procure romper os limites que restringem a atividade escolar à mera repetidora de conteúdos arrolados pelos livros didáticos, procurando a formulação de propostas curriculares que integrem os conteúdos das diferentes disciplinas na explicação da realidade presente interna e externamente a ela. É preciso mais e mais estabelecer relações entre a educação dentro da universidade e fora da universidade, numa dialética ininterrupta, globalizante, crítica, que deve servir ao homem e à melhoria de sua vida, possibilitando verificar até que ponto a universidade contribui, de fato, para que o saber possa, efetivamente, ser de todos e não apenas de alguns; não, por acaso, os que detêm o poder econômico e político.
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REF. BIBLIOGRÁFICAS:
KRUPPA, Sônia. Sociologia da Educação: SP, Cortês, 1994.
BETTO, Frei: texto mimeografado.
MARTINS, Carlos Benedito. O que é Sociologia: SP, Brasiliense, 1994.
TELES, Maria Luíza Silveira. A Educação Brasileira: Petrópolis; Vozes, 1986.
BLOCH, Marc. Apologia da História ou o ofício do historiador: RJ; Jorge Zahar, 2001.
CHAUÍ, Marilena. A cultura: São Paulo; Ática, 1998.
SEVERINO, Antônio Joaquim. Educação e Cultura: No universo dos bens simbólicos: SP; FTD, 1994.
CAVALCANTE, Maria Juraci Maia. O Autoritarismo na escola pública: Fort-Ce; Revista Educação em debate, JAN/DEZ 1988.
REF. BIBLIOGRÁFICAS:
KRUPPA, Sônia. Sociologia da Educação: SP, Cortês, 1994.
BETTO, Frei: texto mimeografado.
MARTINS, Carlos Benedito. O que é Sociologia: SP, Brasiliense, 1994.
TELES, Maria Luíza Silveira. A Educação Brasileira: Petrópolis; Vozes, 1986.
BLOCH, Marc. Apologia da História ou o ofício do historiador: RJ; Jorge Zahar, 2001.
CHAUÍ, Marilena. A cultura: São Paulo; Ática, 1998.
SEVERINO, Antônio Joaquim. Educação e Cultura: No universo dos bens simbólicos: SP; FTD, 1994.
CAVALCANTE, Maria Juraci Maia. O Autoritarismo na escola pública: Fort-Ce; Revista Educação em debate, JAN/DEZ 1988.
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Dica de Leitura: Agostinho, Santo (354-430). De Civilitate Dei, impresso em 1467. [A cidade de Deus, Bragança Paulista, Ed. Universitária São Francisco, 9ª Ed., 2005. -- Obra de Santo Agostinho, bispo de Hipona (África do norte), que contém sua reação ao declínio do Império Romano e defende a tese de que em seu lugar deveria ser instituído um Estado teocrático, controlado pela igreja cristã. Agostinho descreve o curso da história como a luta entre duas comunidades, a civitas coelestis (cidade celestial), vivificada pelo amor de Deus, e a civitas terrena (cidade terrena), determinada pelo homem. Ambas estão interligadas nas estruturas reais da sociedade, mas a história pode ser interpretada como desdobramento da intenção de Deus de salvar a humanidade por meio de sua misericórdia. Desse modo, Santo Agostinho tornou-se o fundador da fiolosofia da História, disciplina que confere a esta última um sentido e um objetivo. --
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O último poema de LAOZI(600 a.C.) trata de como adquirir sabedoria pelo desapego, ou seja, a sabedoria e a felicidade não vêm das circunstâncias de fora, mas sim da substância de dentro. Civilização e progresso técnico não representam verdadeira cultura, pois a finalidade do homem na terra não consiste em alo-realizações, mas sim, auto-realização, posto que esta é um fim em si mesma, diferente daquela, que pode servir de meio para a auto-realização. Em resumo, é tão difícil para o sábio adquirir riquezas, como é difícil para o rico adquirir sabedoria.
" Palavras verdadeiras não são lisonjeiras.
Palavras lisonjeiras não são verdadeiras.
O homem de bem não fala muito.
Quem fala muito não é homem de bem.
Homens sábios não são eruditos, homens eruditos não são sábios.
Quem trilha o caminho da perfeição não acumula tesouros.
Riqueza é para o sábio o que ele faz pelos outros.
Quanto mais ele dá aos outros, tanto mais rico se torna.
Assim como do UNO brota a vida, assim age o sábio, sem ferir ninguém"
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