terça-feira, 9 de outubro de 2007

Postagem Resenhas1 MICRO-HISTÓRIA ; O QUEIJO E OS VERMES

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“MICRO-HISTÓRIA, OS PROTAGONISTAS ANÔNIMOS DA HISTÓRIA” ; RONALDO VAINFAS, 2002 ; E
“ O QUEIJO E OS VERMES “ ; CARLO GINZBURG, 1976 .
Resenha de livros = Por Francisco José Alves de Aragão*

Nota : darei ênfase à 1ª. Obra, de Vainfas, inclusive pelo fato da própria inserção explicativa da Obra de Ginzburg , que um expoente da micro-história, naquela. O relato sobre “O queijo e os vermes” aparecerá inteiramente em negrito, no decorrer desta descrição.
-->Comecemos com a Obra, de Vainfas, “MICRO-HISTÓRIA, OS PROTAGONISTAS ANÔNIMOS DA HISTÓRIA” , onde em sua introdução o autor faz considerações sobre os debates no Brasil na década de 1980 sobre micro-história, principalmente pelas traduções dos livros de história das mentalidades dos franceses, da nova história cultural dos italianos, ingleses, norte-americanos.
-->Naquele momento a micro-história foi posta de forma patética, expressão do pior tipo de história. Ainda se fazia confusão entre história das mentalidades, história cultural, nova história, micro-história, pois todas essas inovações chegaram juntas na década de 1980. Na década de 70 havia uma barreira intelectual imposta pela ditadura militar.
-->A série italiana MICROHISTORIE foi inaugurada em 1981, e o boom dessa corrente no Brasil se deu somente na metade da década de 1980. Daí seguiram-se os debates prós e contras ... importante crítica seria a de que a história renunciara a seu estatuto de ciência, invadindo o terreno da literatura e rompendo de vez as fronteiras com a narrativa ficcional.
-->A preocupação essencial do livro de Vainfas é ...IDENTIFICAR A PRÁTICA MICROANALÍTICA..., seu aparato conceitual, redução de escala, descrição densa e delimitação dos seus objetos.
-->Passemos ao primeiro capítulo: O QUE A MICRO-HISTÓRIA NÃO É : O autor começa por dizer que a micro-história sempre foi confundida com a história das mentalidades, pois há pontos de aproximação entre ambas: Apego à narrativa, tentativa de estreitamento dos laços entre história e antropologia. Essa confusão, diz o autor, não é ingênua, pois procura desqualificar o gênero por um proselitismo político marxista ou de esquerda.
-->Passa ele a discorrer sobre AS MENTALIDADES, que é filiada aos ANNALES, da diversidade de tendências que sempre apresentou, mas o ponto de partida é o movimento dos Annales, em 1929, de quem é herdeira dileta. Porém, rompeu com o espírito de síntese e a história historicizante; LUCIEN FEBVRE e MARC BLOCH combatiam uma história que se furtava ao diálogo com as demais ciências humanas; eles disponibilizaram uma história preocupada com as massas anônimas, seus modos de viver, sentir e pensar; estavam animados com uma história interdisciplinar; Marc Bloch , em 1924, foi o precursor, com “OS REIS TAUMATURGOS”, ; posteriormente, Lucien Febvre (1928) com “UN DESTIN, MARTIN LUTHER”. Emborda condicionassem seus estudos a uma perspectiva globalizante e sintética da história social, inauguraram as MENTALIDADES.
-->Braudel, em 1958, problematizou o tempo de longa duração, crucial para o conceito de Mentalidades. Ele introduziu o Estruturalismo de Lévi-Strauss na historiografia francesa. Apesar de tudo, a era de Braudelo foi avessa às Mentalidades, por conceber as longas durações como relações entre homem, geografia e condições materiais. Afastou-se ao marginalizar o estudo das mentalidades.
-->A 2a. Fase dos Annales é caracterizada pelas grandes obras de história total, com ênfase nos aspectos socioeconômicos e suas relações com o meio geográfico. Ocorre também a penetração do Marxismo. No entanto a ruptura verdadeira, responsável pelo aparecimento dos da História das Mentalidades ocorre em relação à era de Braudel, onde predominava uma visão totalizante e socioeconômica da história.
-->A mudança de rumos nos Annales e sua pulverização temática se dão por diversos fatores, mas no plano intelectual há o prestígio de Lévi-Strauss e a Antropologia Estrutural na França, e o prestígio também de Michel FouCault, com sua Arqueologia do Saber, obra que pôs em xeque os paradigmas ocidentais do conhecimento científico, o racionalismo e o próprio saber histórico. Esses fatores estimulam novos temas , como a sexualidade, prisões, micropoderes, doença. No plano geral, marcou a favor das Mentalidades o impacto dos anos 60, a revolução sexual, etc...
-->Desde fins de 1960, as Mentalidades passaram a reinar na historiografia francesa e é caracterizada em função de seus temas e estilos. Aos temas destacam-se assuntos do cotidiano e suas representações: AMOR, MORTE, FAMÍLIA, CRIANÇA, BRUXAS, LOUCOS, MULHER, HOMOSSEXUAIS, CORPO, MODOS DE VESTIR, CHORAR, COMER, BEIJAR. Aos estilos destacam-se o apego à narrativa e à descrição, em oposição à explicação globalizante; recortes histórico-antropológicos, eleição de objetos pouco freqüentados pela historiografia geral, valorização de enredos e personagens anônimos.
-->“todo e qualquer documento pode se prestar a uma pesquisa de mentalidades” , é a afirmação tantas vezes reiterada, que confirma a vocação interdisciplinar dos Annales e seu diálogo com a Antropologia, a Psicologia e a Lingüística. Vale acrescentar a preocupação da quantificação, ou seja , a medição dos padrões coletivos de comportamento e sua lenta variação no tempo e a tendência a poesquisá-los a partir de fontes em série . Contudo, o quantitativismo é usado por uns e totalmente descartado por outros.
-->Passa a discorrer sobre Le Goff e seu trabalho de 1974 “AS MENTALIDADES , UMA HISTÓRIA AMBÍGUA” , de onde se extrai 03 idéias : a questão do recorte social, o nível da história das mentalidades, porque revelador do conteúdo impessoal de seu pensamento; a noção do inconsciente coletivo, e por fim a a questão do tempo das mentalidades, que é aquilo que muda mais lentamente. Outro aspecto importante é o diálogo às vezes áspero, às vezes conciliador com o Marxismo. Diz ele que os historiadores que recorriam a essa corrente ideológica não obtiveram êxito em passar das infras para as superestruturas. As mentalidades viriam suprir uma deficiência teórica do Marxismo.
-->Michel Vovelle, por sua vez, assumidamente Marxista, rejeitou a noção de inconsciente coletivo, optando por imaginário coletivo; propôs uma articulação entre o conceito de mentalidade e o de ideologia, entendida esta como dominação de classe. Advertiu sobre a dilatação excessiva do tempo da mentalidade e o apego à inércia ou a mudanças imperceptíveis, sob o risco da renúncia da explicação das transformações sociais no tempo. Indica ele a necessidade de compatibilizar a curta com a longa duração, o tempo da ruptura com o das permanências, respiração fina da história.
-->Os principais dilemas decorrentes das diferenças de enfoques de Vovelle e Le Goff são as seguintes: em primeiro, reconhecer uma relativa autonomia das mentalidades e a necessidade de articulá-las a totalidades histórico-explicativas; em segundo, dilema entre a perspectiva da longa duração e o risco de fossilizar a história, tornando imperceptíveis as mudanças; em terceiro, o dilema entre resgatar o lado humano e até individual da história e o dever de explicar seu sentido coletivo e global. O dilema maior de onde decorrem os outros descritos seria O IMPASSE ENTRE A CRISE DO RACIONALISMO E A PRÓPRIA TRADIÇÃO RACIONALISTA DO MUNDO OCIDENTAL.
-->Também Carlo Ginzburg, um dos pioneiros da história das mentalidades na Itália, e depois expoente da Micro-história, igualmente se insurgiu contra a máquina de guerra do ceticismo, que duvida da diferença entre história e ficção, sugerindo que ambas não passam de gêneros de narrativa literária.
-->As temática preferenciais descritas por Ronaldo Vainfas para as mentalidades são as seguintes :
Religiosidades e suas representações;
Sexualidades e suas representações;
Sentimentos coletivos;
A vida cotidiana em regiões e cidades.
-->O estudo das mentalidades se expandiu pela Europa, EUA, américa latina, e sofreu adaptações de acordo com as tradições culturais e historiográficas de cada lugar. Considerando as mentalidades produzida na França, que foi o berço dessa corrente de pesquisas, pode-se falar de pelo menos 03 variantes da história das mentalidades :
a herdeira da tradição dos Annales, que reconhece que o estudo do mental só faz sentido sentido se articulado a totalidades explicativas;
a assumidamente Marxista, que relaciona os conceitos de mentalidades e ideologias, bem como minora a frialdade da longa duração e valoriza a ruptura e a dialética entre o tempo longo e o acontecimento revolucionário.
Aquela pouco problematizadora dos objetos, caracterizada pela simples reconstituição de épocas ou episódios do passado, direcionada a estudos de temas picantes, com motivação sensacionalista .
-->O autor, Ronaldo Vainfas, passou a discorrer sobre o tema NOVA HISTÓRIA, neste mesmo capítulo, com sub-título de NOVA HISTÓRIA E MENTALIDADES – HISTÓRIA EM MIGALHAS? , onde Jacques Le Goff e Pierre Nora reivindicavam a coexistência de vários tipos de história igualmente válidos, o fatiamento da história, em contraposição à velha história, dos historiadores positivistas.
-->Os adversários dos Annales diziam que aquela tendência sinalizava a pluralidade de enfoques, diversidade de temas e renúncia a qualquer ortodoxia teórica ou doutrinária, preocupada com o nível do cotidiano, do ordinário, dos pequenos.
-->Diversos historiadores decretaram o fim da história totalizante. Pierre Nora salientou: “vivemos uma história em migalhas, eclética, ampliada em direção às curiosidades, às quais não precisamos nos recusar” .
-->Diz o autor que faz-se necessário estabelecer as diferenças e delimitar os campos, começando pelo esclarecimento dessa expressão tão geral e imprecisa : NOVA HISTÓRIA. Esse termo foi muitas vezes utilizado por Bloch e Febvre, para designar aspectos ou profissões de fé da história defendida pelos Annales contra o historicismo. No entanto não ambicionavam o status de uma nova corrente, apenas um combate frontal a uma “velha história” preocupada com grandes fatos e personagens políticos, prisioneira de evidências documentais e fortemente nacionalista.
-->A nova história, para o autor porém, é aquela que foi assim rotulada nos anos 70, que apontava para a diversificação das abordagens, para o fatiamento da história. A que fez das mentalidades seu carro-chefe. A nova história incluía, na prática, tendências muito variadas e, sequer excluía o marxismo, parecendo antes propor uma nova atitude historiográfica, mais aberta e mais eclética. É verdade que não fica claro sequer a diferença entre problemas, abordagens e objetos. Todos os assim chamados novos objetos pertencem ao domínio das mentalidades . Pulsava uma tentação pelos estudos da vida cotidiana, ao tempo longo dos padrões culturais, às representações da realidade no lugar das relações de produção, o gosto pela narrativa de casos e situações particulares, enfim, como disse Pierre Chaunu, “à passagem do porão ao sótão”. A marca estruturalista de Lévi-Strauss, bem como a avassaladora obra de Michel Foucalt, que ousou adentrar o domínio da história, descortinando novos objetos de evidente interesse, somam-se àquelas influências. O fato é que os grandes livros da chamada nova história foram livros de história das mentalidades, de maneira que a expressão “história em migalhas”seria mais válida para o que o autor chamou de periferia da história das mentalidades, que são aqueles livros curiosíssimos sobre temas extravagantes, que constituem essa história sensacionalista e descompromissada com o que quer que seja. São exemplos a história da masturbação, etc...
-->O autor passa a detalhar os clássicos das mentalidades, para fechar o capítulo, mas não convém aqui entrar em detalhes, posto que já induzo satisfeita esse mister. No entanto, repasso as obras examinadas, que são : OS REIS TAUMATURGOS, de Marc Bloch; HISTÓRIA SOCIAL DA CRIANÇA E DA FAMÍLIA, de Phillipe Ariès; MAGISTRADOS E FEITICEIROS NA FRANÇA DO SÉCULO XVII, de Robert Mandrou; HISTÓRIA DO MEDO NO OCIDENTE, de Jean Delumeau; e por fim , MONTAILLOU, VILLAGE OCCITAN, de Emmanuel Le Roy Ladurie. E o autor, Ronaldo Vainfas finaliza o capítulo anunciando uma das características fundamentais da micro-história, que muito a diferencia da história das mentalidades: sua renúncia à história geral, à contextualização sistemática, à explicação, à totalidade, à síntese.
-->O autor não tem dúvida quanto à manutenção fiel aos Annales pelas Mentalidades; histórias preocupadas com explicações gerais, globais, que relacionam temas específicos com estruturas totalizantes e contextualizadas. Porém, pouco têm a ver com Micro-história. A característica fundamental da Micro-história, que a diferencia das Mentalidades é sua renúncia à história geral, à contextualização sistemática, à explicação, à totalidade e à síntese.
-->Passemos ao capítulo 02: O BERÇO DA MICRO-HISTÓRIA:
-->A chamada nova história cultural, diz o autor, não recusa as expressões culturais das elites letradas, mas revela especial apreço pelas manifestações das massas anônimas, pelo informal, sobretudo pelo popular. Os Annales e as Mentalidades são, por assim dizer, precursores da nova história cultural.
-->“O QUEIJO E OS VERMES”, livro sobre as idéias de um moleiro Friulano condenado como herege pela Inquisição Papal no séc. XVI, Ginzburg abandona o conceito de mentalidades e adota o de cultura de popular, definindo-a como o conjunto de atitudes, crenças, códigos de comportamento próprios das classes subalternas em um certo período histórico. Ginzburg formula uma visão original de cultura popular que não se confunde com “cultura imposta às classes populares” pelas classes dominantes, nem exprime o triunfo de uma “cultura original e espontânea” das classes populares sobre os projetos aculturadores das elites letradas . A cultura popular se define, segundo ele, pela oposição à cultura letrada ou oficial das classes dominantes. O conflito de classes em uma dimensão sociocultural é recuperado pelo autor, que diz que a cultura popular se define também pelas relações que mantém com a cultura dominante, filtrada pelas classes subalternas segundo seus próprios valores e condições de vida. O conceito proposto de circularidade cultural se dá pela dinâmica entre os níveis culturais popular e erudito, pois também a cultura letrada filtra à sua moda os elementos da cultura popular. O estudo das idéias de Mennocchio, objeto teórico do livro, não personifica a cultura popular em si, mas o complexo processo de circularidade cultural presente em um indivíduo que, embora egresso das classes subalternas, sabia ler, e com certeza lera certos textos produzidos no âmbito das classes dominantes, filtrando-os através de valores da cultura camponesa.
-->Edward P.Thompson, por sua vez, tem sua trajetória distinta da de Ginzburg, haja vista a temática de sua obra ser voltada para a formação da classe operária inglesa, em meio ao processo de industrialização. Sua formação é a de um historiador Marxista , e seu modelo é de uma versão Marxista da História Cultural. Sua obra é vasta, composta de numerosos livros e artigos. O autor se afasta da tese tradicional da história social britânica, segundo a qual as classes populares seriam prisioneiras de uma espécie de paternalismo das classes dominantes, e portanto incapazes de construir identidades e valores próprios. Considera que é no processo de luta que se forja a identidade social das classes populares, de sorte que a classe operária pode adquirir uma dimensão própria de sua identidade, oposta à ordem burguesa, sem que tal identidade assuma um caráter revolucionário. Afasta-se do modelo de Ginzburg em pelo menos três pontos importantes : motivos genealógicos, diferenças de problemáticas e o cenário privilegiado por Thompson, que é a luta coletiva das classes populares, ao passo que o de Ginzburg é o da resistência e domesticação da cultura popular na longa duração.
-->O surgimento da micro-história tem a ver com o debate intelectual e historiográfico das décadas de 70 e 80. Se a história das mentalidades sempre foi herdeira dos Annales, a micro-história como gênero surgiu na Itália, tendo “O QUEIJO E OS VERMES” sido o livro chave e inspirador da corrente. A micro-história, na sua origem já se preocupara com com uma problematização mais nítida do objeto de investigação, especialmente quanto às hierarquias e conflitos sociais. A coleção Microstorie foi lançada em 1981, sendo uma série de estudos monográficos sobre temas particulares, mas a micro-história acabou se tornando algo mais que um simples título de uma série editorial. A micro-história acabaria se firmando como um gênero de fazer e contar história, um gênero diferente.
-->No capítulo 03 A MICRO-HISTÓRIA EM CENA, o autor começa por falar em exposição de enredos e, explica que é um gênero que privilegia a narrativa como escrita da história. Esse é o modelo típico da exposição micro-histórica.
-->Assim, no livro de Ginzburg, o primeiro capítulo procura traçar o perfil do protagonista. Não há contextualização da Itália da época, senão a localização da aldeia, nenhuma referência prévia à inquisição pontifícia da época, nenhuma referência à contra-reforma. O único sinal , nessas primeiras linhas, é o processo inquisitorial. Mennochio, embora modesto, havia freqüentado uma das poucas escolas de nível elementar da região, aprendera um pouco de latim. Era falastrão, sendo dado a tratar de religião, doutrina, padres, sempre em tom muito crítico. A comunidade, embora não o molestasse, desaprovava-o. O pároco e o clero local o detestavam, e foi esse pároco, dom Odorico Vorai, que o delatou e, por isso, seria convocado e depois preso pelo santo ofício.
-->Mennochio foi interrogado e não seguiu o conselho dos amigos. Pôs-se a tratar da criação do mundo, dos sacramentos, de Deus e do diabo. Suas idéias eram de tal modo extravagantes que o vigário-geral que pela primeira vez o inquiriu perguntou-lhe se falava sério ou se estava brincando.
-->O autor demarca, em uma simples frase, a alteridade no tempo. Os que pouco sabem sobre o séc. XVI terão uma idéia vaga, porém clara, do que podia ser considerado heresia no tempo de Mennochio; os que conhecem bem o contexto alcançarão, por outro lado, a precisão da comparação feita pelo autor. Esse é um traço da micro-história por excelência: buscar expor a história para os que a conhecem e também para os que não a conhecem, por meio da narrativa de casos miúdos. Vida material, hierarquias sociais, crenças, tudo isso passeia no livro, em meio à narrativa sobre o caso inquisitorial contra Mennochio. O personagem central que, não fosse alfabetizado e falastrão, não passaria de mais um moleiro dentre milhares de outros. O livro transporta o leitor da vida camponesa às lúgubres salas da Inquisição. Mennochio expunha sua cosmogonia fantástica, dizendo da produção dos anjos a partir da mais perfeita substância do mundo, assim como os vermes nasciam do queijo e receberam vontade, memória e intelecto de Deus. Uma cosmogonia substancialmente materialista e tendencialmente científica. Um homem rude que, no entanto, por ter lido alguns livros, foi capaz de interpretar os dogmas da Igreja à sua maneira e ousou desafiar os inquisidores com sua pertinácia. Mennochio voltou a pregar suas heresias, acabou sendo novamente processado e executado na fogueira, pelos idos de 1599, quase no mesmo ano em que se concluiu o processo contra o ex-frade Giordano Bruno, vítima célebre da inquisição pontifícia. Uma coincidência que poderia simbolizar a dupla batalha, para cima e para baixo, da hierarquia católica para impor as doutrinas impostas pelo Concílio de Trento.
-->Nos livros examinados há o cuidado no uso das fontes e a profusão delas, de maneira que são imprudentes os críticos da micro-história que insistem na cantilena de que nela não há pesquisa ou a pesquisa é baseada em poucos documentos qualitativos . O rigor do historiador deve prevalecer, e isto vale tanto para os grandes fatos da política ou da economia, como para os pequenos fatos da vida cotidiana de aldeias, de personagens anônimas, os não pertencentes ao panteão dos personagens oficiais da história.
-->Passemos adiante, capítulo 04 A MICRO-HISTÓRIA NOS BASTIDORES, onde o autor começa por tratar de dizer que a micro-história surgiu de outras matrizes que não das mentalidades; que nas mentalidades os recortes permaneceram amplos – paraíso, purgatório, medo, feitiçaria, infância, - já na micro-história os recortes privilegiados foram sempre minúsculos – indivíduos, comunidades, pequenos enredos, -. A micro-história resulta das inquietações dos historiadores italianos, em face da discussão sobre a crise dos paradigmas e, particularmente, sobre as fragilidades das mentalidades.
-->Ginzburg e Carlo Poni discutiram uma série de impasses e abriram caminhos para a micro-história. Depreende-se daí que surge na Itália, como resultado de um mal estar de um grupo de historiadores, diante da dependência de modelos historiográficos importados. A proposta da micro-história começou a circular de forma informal, em alguns artigos. O texto fundador supõe-se “SINAIS: RAÍZES DE UM PARADIGMA INDICIÁRIO”, de Ginzburg, que teve a ambição de fundar um novo paradigma histórico, alcançou ampla repercussão e teve ampla circulação internacional.
-->O paradigma indiciário abriu caminhos para a pesquisa de microtemas e, mais que isso, para a pesquisa microanalítica. Microtemas são estudos exaustivos de comunidades periféricas ou de personagens sem nenhuma celebridade na História. Microanálise é a descrição e interpretação de casos minúsculos e periféricos à luz de uma história geral.
-->O conceito de estrutura para a micro-história tem se identificado a um sistema que engloba tanto a sincronia como a diacronia. A Micro-história voltou-se apaixonadamente para o tempo curto e frenético dos acontecimentos, de preferência banais. A micro-história se propõe interdisciplinar por excelência. A dimensão minúscula do objeto ou a escolha de um tema banal para investigação constitui uma das chaves da micro-história, que é a redução de escala de observação.
-->Enfim, no capítulo 05 O MACRO E O MICRO EM XEQUE, o autor trata de compatibilizar os dois níveis de observação, compatibilizar as escalas microanalítica e macrossocial, embora sejam muito diferentes e alcancem realidades distintas do tecido social. Elas podem ser vistas como complementares, embora não signifique que a conjugação de escalas seja fácil.
-->O autor diz que, em trabalhos concretos, podem-se alcançar escalas intermediárias, caso o historiador opte por um recorte macrossocial e selecione uma problemática geral, limitando a micro-análise a alguns exercícios ou incursões, à guisa de exemplos de quadros mais amplos. Tratar-se-ia de uma alternância de escalas. No caso inverso, se a concepção do objeto for microanalítica, a elevação da escala fica comprometida face à opção preliminar pelo caso singular. As escalas em jogo podem ser, assim, complementares até certo ponto. Não são definitivamente excludentes, mas podem ser alternativas, porém ambas são verdadeiras, como destaca Jacques Revel .
-->Uma diferença que não implica hierarquia sobre qual escala se sai melhor na tarefa de reconstruir a história.
-->A multiplicidade de contextos miúdos em que o micro-historiador insere seus atores permite situar a micro-história para além da dupla dimensão – social e cultural – pois ela não rejeita o econômico ou o político, nem se limita a realizar uma história cultural das representações. Se não chega a realizar o sonho de uma história total a partir de baixo, é porque, ao refugiar-se na experiência histórica vivida, desafia os cânones da totalidade.
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Dica de Leitura: Ptolomeu, Cláudio (morto após 161 d.C.). Cosmographia [Cosmografia], impresso em 1477. Síntese da cosmologia geocêntrica, que determinou a visão do mundo entre os séculos II e XVII. Seus dados incorretos sobre a extensão da Ásia levaram Colombo a empreender suas viagens (--> História. Visão de mundo medieval).

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" Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" - as palavras do Nazareno giram em torno do problema da libertação do homem, ou seja, em outras palavras : eu sou livre de tudo que sei e escravo de tudo que ignoro. A ignorância de si mesmo escraviza o homem e o conhecimento de si mesmo liberta o homem - conhece-te a ti mesmo - A verdadeira filosofia é a mais alta religião, que liberta o homem de todas as suas escravidões provisórias e lhe dá uma liberdade definitiva. == brevemente farei um resumo em torno deste tema -A FILOSOFIA DA GRANDE LIBERTAÇÃO, baseado no livro Setas para o Infinito, de Huberto Rohden == por enquanto, é só.Obrigado.

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