"A INTERIORIZAÇÃO DA METRÓPOLE" , de Maria Odila Leite Dias
Resenha de Livro= Por Francisco José Alves de Aragão
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Maria Odila começa por dizer que é preciso desvincular o processo de formação da nação com a imagem tradicional da colônia em luta com a metrópole; prossegue dizendo que as contradições e conflitos internos não tinham condições de gerar forças com uma “consciência” nacional capaz de reorganizar a sociedade e constituí-la em nação; que é a partir da revolução liberal do Porto que se difunde na colônia aspirações do liberalismo constitucional, o que suscita desordens; isso acarreta uma reação conservadora, tendo em vista que para os homens de ideais constitucionalistas era importante continuar ligados a Portugal, pois viam na monarquia os laços com a civilização européia, com a renovação e o progresso; é o capitalismo industrial inglês, diz ela, quem iria definir as transformações do mundo ocidental nesse período; isso irá afetar a política de todos os países coloniais relacionados com a expansão do comércio livre inglês, notadamente as Antilhas, o que abriu o pretexto para formação de um novo império português no Brasil; esse processo todo de pressões externas reflete no processo de separação de Portugal; mas o estudo de Maria Odila parte para identificar como essas grandes forças de transformações afeta as classes dominantes e os mecanismos internos do processo de formação da nacionalidade brasileira; restava aos comerciantes portugueses, ao perder a intermediação comercial do Brasil, unir-se às famílias rurais e à produção; daí começa a construir sua tese central que é a do processo de ajustamento interno a essas pressões internacionais , que é o de enraizamento de interesses portugueses e o processo de interiorização da metrópole no centro-sul da colônia; são conflitos internos, domésticos, provocados pelo impacto da revolução francesa, que ficaram associados à luta civil que se trava entre as novas tendências liberais e a resistência de uma estrutura arcaica e feudal contra as inovações que a nova corte do Rio tentaria impor ao reino; continua ela dizendo que o Brasil seria a tábua de salvação do reino, que teria condições de se refazer, pela prosperidade do Brasil; a reconstrução da metrópole requeria enormes despesas, funcionalismo, membros da nova corte, guerras da Guiana e do Prata, ocupação francesa, tudo isso levou à emissão indiscriminada de moeda, acarretando a desvalorização em relação à moeda da corte, bem como a evasão da mesma para o novo império; houve tensões , divergências de interesses com os portugueses no Brasil, as reformas de reconstrução e modernização de Portugal não foram levadas a bom termo, culminando na revolução do Porto; a consciência propriamente nacional viria pela integração das diversas províncias, por meio da luta pela centralização do poder e da “vontade de ser brasileiros”; os enormes investimentos locais postergavam a volta da corte, concessões em obras públicas avivava os interesses particulares e faziam com que os principais homens de negócios da corte intentassem em ficar no país; começa aí o enraizamento dos interesses portugueses, pelas construções, compras de terras e estabelecimento de firmas de negócio; quando da revolução do Porto e a volta de D. João VI para Portugal, era grande a apreensão, falta de segurança social, proporção exagerada entre minoria branca e proprietária e uma maioria mestiça, pobre e desempregada; porém, a figura do príncipe, os títulos de nobreza atuam como mecanismos de defesa da desintegração nacional e coesão do elitismo; as pressões do novo liberalismo econômico foram as chaves mestras que desencadearam as forças de transformação do período mas, pelas peculiaridades sociais coloniais brasileiras, essas não se identificaram por imediato com um movimento de libertação nacional; a complexidade dos conflitos internos e a heterogeneidade era muito grande; houve o enraizamento de novos capitais e interesses portugueses, associados às classes dominantes nativas e luta pela afirmação de um poder executivo central; é que essas classes queriam se fortalecer contra insubordinações regionais; a autora afirma então que o processo de INTERIORIZAÇÃO DA METRÓPOLE é que é a chave para a formação da nacionalidade brasileira; a continuidade da ordem existente, da monarquia eram as grandes preocupações dos homens que forjaram a transição para o império; não queriam revolução, pois podia ser desastroso; diz ela “ ...a semente de integração nacional seria, pois, lançada pela nova corte, ..., um ato de vontade de portugueses adventícios, cimentada pela dependência e colaboração dos nativos... a insegurança social cimentaria a união das classes dominantes nativas com a vontade de ser brasileiros dos portugueses imigrados que vieram fundar um novo império nos trópicos...” ; As tradições da colonização portuguesa e o afã de integração e conquista dos recursos naturais delineavam a imagem do governo central forte, necessário para neutralizar os conflitos da sociedade e as forças de desagregação internas.
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ENTREVISTA COM MARIA ODILA (conseguida na Internet):
A interiorização da metrópole é um trabalho da década de 60 e que ainda hoje suscita uma discussão muito interessante. Qual a importância desse tema para o debate sobre a História do Brasil?
MO: Eu tenho impressão de que essa consciência de que somos nós mesmos os colonizadores é fundamental. Nós nos colonizamos a nós mesmos, como país. Então, a exploração não veio do outro, do imperialismo, da metrópole, não veio de fora. Nós nos oprimimos entre nós. Acho que a questão fica mais interessante para nós se imaginamos que a metrópole era, muitas vezes, comerciantes ou autoridades da coroa que viviam aqui e que, de certa forma, se enraizavam aqui. Na época do meu estudo, existiu muito essa discussão. O Caio, na Revolução Brasileira, fala muito nisso, que o colonialismo partiu de dentro e não de fora. O título do meu artigo eu arrumei bem depois que já tinha escrito, quando me dei conta da importância da atuação dos comerciantes portugueses no Rio de Janeiro, na Bahia, em Pernambuco, o que me fez pensar nessa idéia de que as elites no Brasil não eram tanto as elites rurais, mas os comerciantes, os que realmente tinham fortunas, uma elite de comerciantes já casada com setores rurais e que foi assim desenvolvendo raízes. Essa idéia da metrópole e da colônia serve muito à fase de construção do Estado, em que é necessário ter uma referência externa para criar uma identidade própria.
RH: Isso poderia ser associado, hoje, à idéia de identidade nacional?
MO: Eu luto muito com esse termo identidade porque todo processo de construção do Estado é um processo muito elitista, marcado por essa idéia de construir e impor uma identidade nacional. Acredito que todo o autoritarismo entranhado na gente vem muito dessa vontade de forjar uma identidade nacional, onde se apagam as diferenças regionais, as diferenças locais. E a gente assiste a isso muito claramente no Estado Novo. Então, estou com Deleuze, que fala em processos de identificação, múltiplos, plurais, fugindo de ranços autoritários e elitistas.
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Maria Odila começa por dizer que é preciso desvincular o processo de formação da nação com a imagem tradicional da colônia em luta com a metrópole; prossegue dizendo que as contradições e conflitos internos não tinham condições de gerar forças com uma “consciência” nacional capaz de reorganizar a sociedade e constituí-la em nação; que é a partir da revolução liberal do Porto que se difunde na colônia aspirações do liberalismo constitucional, o que suscita desordens; isso acarreta uma reação conservadora, tendo em vista que para os homens de ideais constitucionalistas era importante continuar ligados a Portugal, pois viam na monarquia os laços com a civilização européia, com a renovação e o progresso; é o capitalismo industrial inglês, diz ela, quem iria definir as transformações do mundo ocidental nesse período; isso irá afetar a política de todos os países coloniais relacionados com a expansão do comércio livre inglês, notadamente as Antilhas, o que abriu o pretexto para formação de um novo império português no Brasil; esse processo todo de pressões externas reflete no processo de separação de Portugal; mas o estudo de Maria Odila parte para identificar como essas grandes forças de transformações afeta as classes dominantes e os mecanismos internos do processo de formação da nacionalidade brasileira; restava aos comerciantes portugueses, ao perder a intermediação comercial do Brasil, unir-se às famílias rurais e à produção; daí começa a construir sua tese central que é a do processo de ajustamento interno a essas pressões internacionais , que é o de enraizamento de interesses portugueses e o processo de interiorização da metrópole no centro-sul da colônia; são conflitos internos, domésticos, provocados pelo impacto da revolução francesa, que ficaram associados à luta civil que se trava entre as novas tendências liberais e a resistência de uma estrutura arcaica e feudal contra as inovações que a nova corte do Rio tentaria impor ao reino; continua ela dizendo que o Brasil seria a tábua de salvação do reino, que teria condições de se refazer, pela prosperidade do Brasil; a reconstrução da metrópole requeria enormes despesas, funcionalismo, membros da nova corte, guerras da Guiana e do Prata, ocupação francesa, tudo isso levou à emissão indiscriminada de moeda, acarretando a desvalorização em relação à moeda da corte, bem como a evasão da mesma para o novo império; houve tensões , divergências de interesses com os portugueses no Brasil, as reformas de reconstrução e modernização de Portugal não foram levadas a bom termo, culminando na revolução do Porto; a consciência propriamente nacional viria pela integração das diversas províncias, por meio da luta pela centralização do poder e da “vontade de ser brasileiros”; os enormes investimentos locais postergavam a volta da corte, concessões em obras públicas avivava os interesses particulares e faziam com que os principais homens de negócios da corte intentassem em ficar no país; começa aí o enraizamento dos interesses portugueses, pelas construções, compras de terras e estabelecimento de firmas de negócio; quando da revolução do Porto e a volta de D. João VI para Portugal, era grande a apreensão, falta de segurança social, proporção exagerada entre minoria branca e proprietária e uma maioria mestiça, pobre e desempregada; porém, a figura do príncipe, os títulos de nobreza atuam como mecanismos de defesa da desintegração nacional e coesão do elitismo; as pressões do novo liberalismo econômico foram as chaves mestras que desencadearam as forças de transformação do período mas, pelas peculiaridades sociais coloniais brasileiras, essas não se identificaram por imediato com um movimento de libertação nacional; a complexidade dos conflitos internos e a heterogeneidade era muito grande; houve o enraizamento de novos capitais e interesses portugueses, associados às classes dominantes nativas e luta pela afirmação de um poder executivo central; é que essas classes queriam se fortalecer contra insubordinações regionais; a autora afirma então que o processo de INTERIORIZAÇÃO DA METRÓPOLE é que é a chave para a formação da nacionalidade brasileira; a continuidade da ordem existente, da monarquia eram as grandes preocupações dos homens que forjaram a transição para o império; não queriam revolução, pois podia ser desastroso; diz ela “ ...a semente de integração nacional seria, pois, lançada pela nova corte, ..., um ato de vontade de portugueses adventícios, cimentada pela dependência e colaboração dos nativos... a insegurança social cimentaria a união das classes dominantes nativas com a vontade de ser brasileiros dos portugueses imigrados que vieram fundar um novo império nos trópicos...” ; As tradições da colonização portuguesa e o afã de integração e conquista dos recursos naturais delineavam a imagem do governo central forte, necessário para neutralizar os conflitos da sociedade e as forças de desagregação internas.
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ENTREVISTA COM MARIA ODILA (conseguida na Internet):
A interiorização da metrópole é um trabalho da década de 60 e que ainda hoje suscita uma discussão muito interessante. Qual a importância desse tema para o debate sobre a História do Brasil?
MO: Eu tenho impressão de que essa consciência de que somos nós mesmos os colonizadores é fundamental. Nós nos colonizamos a nós mesmos, como país. Então, a exploração não veio do outro, do imperialismo, da metrópole, não veio de fora. Nós nos oprimimos entre nós. Acho que a questão fica mais interessante para nós se imaginamos que a metrópole era, muitas vezes, comerciantes ou autoridades da coroa que viviam aqui e que, de certa forma, se enraizavam aqui. Na época do meu estudo, existiu muito essa discussão. O Caio, na Revolução Brasileira, fala muito nisso, que o colonialismo partiu de dentro e não de fora. O título do meu artigo eu arrumei bem depois que já tinha escrito, quando me dei conta da importância da atuação dos comerciantes portugueses no Rio de Janeiro, na Bahia, em Pernambuco, o que me fez pensar nessa idéia de que as elites no Brasil não eram tanto as elites rurais, mas os comerciantes, os que realmente tinham fortunas, uma elite de comerciantes já casada com setores rurais e que foi assim desenvolvendo raízes. Essa idéia da metrópole e da colônia serve muito à fase de construção do Estado, em que é necessário ter uma referência externa para criar uma identidade própria.
RH: Isso poderia ser associado, hoje, à idéia de identidade nacional?
MO: Eu luto muito com esse termo identidade porque todo processo de construção do Estado é um processo muito elitista, marcado por essa idéia de construir e impor uma identidade nacional. Acredito que todo o autoritarismo entranhado na gente vem muito dessa vontade de forjar uma identidade nacional, onde se apagam as diferenças regionais, as diferenças locais. E a gente assiste a isso muito claramente no Estado Novo. Então, estou com Deleuze, que fala em processos de identificação, múltiplos, plurais, fugindo de ranços autoritários e elitistas.
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