segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Resenhas3 O ARCAÍSMO COMO PROJETO

Resenha de livro = "O Arcaísmo como Projeto"
-João Fragoso e Manolo Florentino -
por Francisco José Alves de Aragão
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Os autores começam explicitando exatamente essas questões da economia colonial tardia e do ideal aristocrático, a busca por entender a persistente desigualdade brasileira por meio de alguns de seus nexos com a história colonial tardia e sua natureza arcaica, impedindo que a economia possa ser apreendida por si mesma sem levar em conta os aspectos não-econômicos que informavam seu funcionamento; a reprodução do sistema econômico se imbricava organicamente na contínua reiteração de uma hierarquia social fortemente excludente; a formação colonial tardia era constituída por um tipo específico de reprodução, na qual os próprios mecanismos de ascensão social implicavam recriar o padrão excludente; a apropriação do excedente produzido aqui perpetuava em Portugal uma economia e sociedade vinculadas ao antigo regime, ou seja, reiterar uma estrutura preexistente, com a aristocracia agrária à testa; os negociantes de grosso trato da colônia monopolizavam as atividades mais rentáveis, sobretudo a agricultura; defendem os autores então que houve um crescente enriquecimento da elite mercantil e uma contínua pauperização das camadas subalternas livres; a elite mercantil viu-se marcada pelo IDEAL ARISTOCRÁTICO, que consistia em transformar a acumulação gerada na circulação de bens em terras, homens e sobrados; foi assim que se constituiu uma economia colonial tardia, arcaica por estar fundada na contínua reconstrução da hierarquia excludente; O capítulo IV — Elite mercantil e a lógica de reprodução em uma economia colonial tardia — faz uma análise do emprego do capital proveniente da atividade mercantil nas primeiras décadas do oitocentos, e como a sua reprodução se orientava para a concentração da riqueza em pequenos grupos ou famílias. Esta acontecia através das relações do comércio com outras atividades, exercidas também fora do Brasil, por parentes ou sócios destes. Para os autores, estas relações aconteciam dentro de uma rede de reciprocidades envolvendo casamentos entre famílias de sócios, sem a qual não seria possível a consolidação do mercado colonial dada a distância entre as regiões ; No capítulo V, O Arcaísmo como projeto, os autores concluem que a articulação do Estado português à sociedade marcada por valores próprios do Antigo Regime, concebeu na colônia uma elite mercantil através dos comerciantes de grosso trato, cujo capital também fomentou a perpetuação de uma aristocracia rural. A evidência deste processo encontra-se na transformação da terceira ou quarta geração desta elite mercantil em senhores de terras e homens, objetivando o distanciamento do mundo do trabalho, mesmo quando tal atividade mostrava-se menos lucrativa do que o comércio. Os grupos que compuseram a elite imperial resultaram da repetição de valores aristocráticos e da concentração de riquezas oriundas da conjugação entre a agroexportação e o abastecimento interno. Impedindo a consolidação de um segmento médio significativo ao longo do século XIX e ao mesmo tempo tornando-se um padrão de concentração de renda na sociedade brasileira até os dias atuais.
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Resenhas2 A INTERIORIZAÇÃO DA METRÓPOLE

"A INTERIORIZAÇÃO DA METRÓPOLE" , de Maria Odila Leite Dias

Resenha de Livro= Por Francisco José Alves de Aragão

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Maria Odila começa por dizer que é preciso desvincular o processo de formação da nação com a imagem tradicional da colônia em luta com a metrópole; prossegue dizendo que as contradições e conflitos internos não tinham condições de gerar forças com uma “consciência” nacional capaz de reorganizar a sociedade e constituí-la em nação; que é a partir da revolução liberal do Porto que se difunde na colônia aspirações do liberalismo constitucional, o que suscita desordens; isso acarreta uma reação conservadora, tendo em vista que para os homens de ideais constitucionalistas era importante continuar ligados a Portugal, pois viam na monarquia os laços com a civilização européia, com a renovação e o progresso; é o capitalismo industrial inglês, diz ela, quem iria definir as transformações do mundo ocidental nesse período; isso irá afetar a política de todos os países coloniais relacionados com a expansão do comércio livre inglês, notadamente as Antilhas, o que abriu o pretexto para formação de um novo império português no Brasil; esse processo todo de pressões externas reflete no processo de separação de Portugal; mas o estudo de Maria Odila parte para identificar como essas grandes forças de transformações afeta as classes dominantes e os mecanismos internos do processo de formação da nacionalidade brasileira; restava aos comerciantes portugueses, ao perder a intermediação comercial do Brasil, unir-se às famílias rurais e à produção; daí começa a construir sua tese central que é a do processo de ajustamento interno a essas pressões internacionais , que é o de enraizamento de interesses portugueses e o processo de interiorização da metrópole no centro-sul da colônia; são conflitos internos, domésticos, provocados pelo impacto da revolução francesa, que ficaram associados à luta civil que se trava entre as novas tendências liberais e a resistência de uma estrutura arcaica e feudal contra as inovações que a nova corte do Rio tentaria impor ao reino; continua ela dizendo que o Brasil seria a tábua de salvação do reino, que teria condições de se refazer, pela prosperidade do Brasil; a reconstrução da metrópole requeria enormes despesas, funcionalismo, membros da nova corte, guerras da Guiana e do Prata, ocupação francesa, tudo isso levou à emissão indiscriminada de moeda, acarretando a desvalorização em relação à moeda da corte, bem como a evasão da mesma para o novo império; houve tensões , divergências de interesses com os portugueses no Brasil, as reformas de reconstrução e modernização de Portugal não foram levadas a bom termo, culminando na revolução do Porto; a consciência propriamente nacional viria pela integração das diversas províncias, por meio da luta pela centralização do poder e da “vontade de ser brasileiros”; os enormes investimentos locais postergavam a volta da corte, concessões em obras públicas avivava os interesses particulares e faziam com que os principais homens de negócios da corte intentassem em ficar no país; começa aí o enraizamento dos interesses portugueses, pelas construções, compras de terras e estabelecimento de firmas de negócio; quando da revolução do Porto e a volta de D. João VI para Portugal, era grande a apreensão, falta de segurança social, proporção exagerada entre minoria branca e proprietária e uma maioria mestiça, pobre e desempregada; porém, a figura do príncipe, os títulos de nobreza atuam como mecanismos de defesa da desintegração nacional e coesão do elitismo; as pressões do novo liberalismo econômico foram as chaves mestras que desencadearam as forças de transformação do período mas, pelas peculiaridades sociais coloniais brasileiras, essas não se identificaram por imediato com um movimento de libertação nacional; a complexidade dos conflitos internos e a heterogeneidade era muito grande; houve o enraizamento de novos capitais e interesses portugueses, associados às classes dominantes nativas e luta pela afirmação de um poder executivo central; é que essas classes queriam se fortalecer contra insubordinações regionais; a autora afirma então que o processo de INTERIORIZAÇÃO DA METRÓPOLE é que é a chave para a formação da nacionalidade brasileira; a continuidade da ordem existente, da monarquia eram as grandes preocupações dos homens que forjaram a transição para o império; não queriam revolução, pois podia ser desastroso; diz ela “ ...a semente de integração nacional seria, pois, lançada pela nova corte, ..., um ato de vontade de portugueses adventícios, cimentada pela dependência e colaboração dos nativos... a insegurança social cimentaria a união das classes dominantes nativas com a vontade de ser brasileiros dos portugueses imigrados que vieram fundar um novo império nos trópicos...” ; As tradições da colonização portuguesa e o afã de integração e conquista dos recursos naturais delineavam a imagem do governo central forte, necessário para neutralizar os conflitos da sociedade e as forças de desagregação internas.
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ENTREVISTA COM MARIA ODILA (conseguida na Internet):
A interiorização da metrópole é um trabalho da década de 60 e que ainda hoje suscita uma discussão muito interessante. Qual a importância desse tema para o debate sobre a História do Brasil?
MO: Eu tenho impressão de que essa consciência de que somos nós mesmos os colonizadores é fundamental. Nós nos colonizamos a nós mesmos, como país. Então, a exploração não veio do outro, do imperialismo, da metrópole, não veio de fora. Nós nos oprimimos entre nós. Acho que a questão fica mais interessante para nós se imaginamos que a metrópole era, muitas vezes, comerciantes ou autoridades da coroa que viviam aqui e que, de certa forma, se enraizavam aqui. Na época do meu estudo, existiu muito essa discussão. O Caio, na Revolução Brasileira, fala muito nisso, que o colonialismo partiu de dentro e não de fora. O título do meu artigo eu arrumei bem depois que já tinha escrito, quando me dei conta da importância da atuação dos comerciantes portugueses no Rio de Janeiro, na Bahia, em Pernambuco, o que me fez pensar nessa idéia de que as elites no Brasil não eram tanto as elites rurais, mas os comerciantes, os que realmente tinham fortunas, uma elite de comerciantes já casada com setores rurais e que foi assim desenvolvendo raízes. Essa idéia da metrópole e da colônia serve muito à fase de construção do Estado, em que é necessário ter uma referência externa para criar uma identidade própria.
RH: Isso poderia ser associado, hoje, à idéia de identidade nacional?
MO: Eu luto muito com esse termo identidade porque todo processo de construção do Estado é um processo muito elitista, marcado por essa idéia de construir e impor uma identidade nacional. Acredito que todo o autoritarismo entranhado na gente vem muito dessa vontade de forjar uma identidade nacional, onde se apagam as diferenças regionais, as diferenças locais. E a gente assiste a isso muito claramente no Estado Novo. Então, estou com Deleuze, que fala em processos de identificação, múltiplos, plurais, fugindo de ranços autoritários e elitistas.
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Palestras3 OS LIMITES POROSOS ENTRE A CIÊNCIA E A FILOSOFIA

CAFÉ CONS(CIÊNCIA) - Faculdade Christus - GRANDES MESTRES, GRANDES DEBATES.
""OS LIMITES POROSOS ENTRE A CIÊNCIA E A FILOSOFIA ""
– Tarcísio Pequeno , Flávio Gonçalves .
Resenha de conferência = Por Francisco José Alves de Aragão =
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= >> Tratou-se de palestra sobre o tema em epígrafe, mesa composta das seguintes pessoas: Tarcísio Pequeno e Flávio Gonçalves (debatedor); a apresentação foi feita pela Profa. Fayga Bedê, que não estava com seu xale tradicional, convidou os participantes para a mesa, depois fez breves considerações acerca do convidado e do palestrante e, foi enfaticamente convidada a permanecer também à mesa. Passada a palavra ao convidado, Profº Tarcísio Pequeno, este introduziu seu discurso dizendo de sua mania de não guardar nada que não seja informação útil. Fez breves referências aos Jônios (filósofos), os chamados “cosmólogos”, então passou a falar sobre a metafísica aristotélica, para depois informar que foi só no fim da idade média que houve a dita divisão entre Filosofia e Ciência. Logo que pode fazê-lo, tratou de defender seus posicionamentos sobre as delimitações entre Ciência e Filosofia. Para ele, a Filosofia procura obter algo que seja “sabedoria”; já a Ciência estaria à procura de algo que seja “conhecimento”. Coube então indagar sobre o que seria conhecimento e o que seria sabedoria. O conhecimento, disse ele, é tudo o que pode ser transferido, repassado. É por meio dele que herdamos todo o manancial cultural, toda a produção da humanidade. Já a sabedoria seria algo pessoal e intransferível, fruto de busca, implicaria em “forma de vida”. O profº Tarcísio passou então a fazer um paralelo entre as duas fronteiras, no sentido de progresso/ evolução. O conhecimento pode se acumular, todavia, em sua diferenciação básica da informação, há a dependência do leitor, posto que, este, só terá conhecimento através da informação se estiver preparado para articulá-la, contextualizá-la, ou seja, capacidade para dialogar com o texto fonte. Então, apesar de toda essa “obesidade informativa” da hodiernidade, pode-se chegar a algum conhecimento pela forma acima relatada. No entanto, nenhum conhecimento é capaz de conduzir à ética e ao caráter. Conhecimento só vira sabedoria quando posto em prática sob forma de vida adequada, salutar, ambiente para felicidade individual {“há sociedades campeãs no conhecimento e medíocres na sabedoria”} . Filosofia é, para ele, “maneira de viver”. É Nietzche que irá acusar Sócrates de traidor da Filosofia, porque a separou de forma de vida. Platão (fundador da Academia) também passou a ensinar o saber!!, mas como ensinar o saber? A partir deste ponto passou o profº Tarcísio a dissertar sobre o sistema de danças, que é o fundamento da religião para os povos primitivos, a prática corporal. {saúde vem de sanidade}. A Antropologia, na consideração da religião primitiva, buscava-a apenas como um sistema de crenças. Já sobre a Arte, disse ele, equivale ao saber, a habilidade das habilidades, que é viver. Para a Filosofia moderna, na esteira do pensamento de Wittgeinstein, “se a Filosofia não servir para ensinar a pensar, servirá para quê?” Pensar deve ser um exercício que pressupõe “inclusão” e “abrangência”, a capacidade de levar em conta os diversos aspectos discordantes de várias áreas. Disse o professor que o Nazismo utilizava-se de argumentos impecáveis para chegar a situações absurdas, pois se utilizavam de premissas válidas, razoabilíssimas, para chegarem a teses absurdas. Ocorre que, disse o Profº, aquelas não eram todas as premissas razoáveis possíveis. Tratando das origens orientais da Filosofia, disse ele que essa vertente tem no mestre, no guru, seu principal vetor. É pela práxis, e somente por ela, que é-se capaz de repassar sabedoria, tendo em vista que a palavra não quer dizer nada, é tão-somente um “atrapalhador”—a linguagem é um meio limitadíssimo para se alcançar a compreensão de sabedoria, de vida humana. Aqui houve a intervenção para o debatedor, Profº Flávio Gonçalves, tecer suas considerações e formular seus contra-argumentos. O debatedor começou por dizer que a intelectualidade (representante do conhecimento) sempre esteve supervalorizada, em detrimento da ética e da moral (representantes da sabedoria); que o sistema educacional é e foi montado sob o prisma da fragmentação, da dissociação, do reducionismo e, que há, assim, um distanciamento da Filosofia; que é um problema epistemológico a demarcação dos campos da Filosofia e da Ciência; que , no entanto, parece não existir fronteiras, hoje, entre Filosofia, Ciência, Arte e Religião; que a declaração de Veneza sedimentou a opção pela transdisciplinaridade . De volta a palavra ao convidado, Dr. Tarcísio Pequeno, este quis situar o atual estágio, ou seja, onde nos encontramos. Disse ele que, em verdade, o reducionismo é uma necessidade do método científico, do método analítico, em que é preciso dividir para completar. Porém, não é o único método possível. Há complexos integrativos, abrangentes e holísticos. Então, estaríamos vivendo a transdisciplinaridade, onde tudo vale, ou seja, é preciso se utilizar de tudo: reducionismo e integracionismo. O palestrante indagou que, hoje, é impossível para um ser humano dominar todo o conhecimento, pois a divisão do trabalho intelectual faz com que haja um acúmulo fantástico do conhecimento. As máximas da redução e da abrangência são : { saber tudo sobre quase nada –reducionismo- e, saber nada sobre quase tudo- integracionismo }. A relação entre cultura x ciência é característica do séc. XXI. Formar o humanista sem uma cultura ampla será impossível, bem como o técnico (sem literatura) será um mero peão. Portanto, é preciso generalização e especialização. Finalizando o evento, o palestrante enfatizou que a lógica avançou mais no séc. XX do que nos 2000 anos precedentes e que é preciso entender a natureza para entender a humanidade e, assim, ser feliz. Fomos então convidados pela coordenadora do evento, Fayga Bedê, a tomarmos o café Santa Clara que, dessa vez atrasou, mas estava muito bom.
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